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Um novo olhar para o uso das Tecnologias Imersivas na Educação Corporativa

Mas o que dizer de uma viagem pelos planetas do sistema solar, uma visita à Filadélfia na época da independência americana, um passeio pelo interior do corpo humano, a realização de uma cirurgia no treinamento ou o treinamento prático de operadores de uma plataforma de petróleo que ainda nem foi construída? (TORI 2010; p. 149)



Os questionamentos acima apresentados pelo professor Romero Tori, especialista em tecnologias interativas trazem sugestões bastante interessantes, não é mesmo? Acredito que enquanto você pensava em possíveis respostas, você deve ter se lembrado das aulas de histórias, geografia ou ciências que seus professores ministravam na época da escola. Mas se você é funcionário de uma empresa deve ter se lembrado dos treinamentos que sua empresa oferta aos colaboradores a fim de que estes possam aprender e desenvolver suas atividades.






A prática de ensino imersivo, como é conhecido esse formato de ensino, permite ao aluno exercitar, na prática efetiva, uma determinada atividade, dentro mesmo da rotina de demandas da organização. Esse processo de imersão é comumente aplicado na esteira de uma trilha de ensino-aprendizagem.


Se pararmos para pensar um pouco em algumas práticas pedagógicas aplicadas na educação corporativa, percebemos que os instrutores e facilitadores promovem dinâmicas que simulam o contato do aluno com os objetos de aprendizagem, como por exemplo: em uma aula um instrutor, ao conduzir o treinamento de uma equipe, orienta o aprendiz a simular o uso dos sistemas utilizados naquela empresa ou até mesmo quando o coloca para acompanhar, lado a lado, a rotina de trabalho de um colaborador já experiente.


Como se pode perceber, o ato de promover a vivência ou o contato com o exercício prático já é uma conduta presente em diferentes rotas de aprendizagem, o qual possibilita ao aluno experienciar de modo efetivo o conhecimento teórico adquirido através de leituras e de outras formações. Para auxiliar nesse processo de aprendizado, surgem as tecnologias imersivas, algumas delas bem conhecidas, como: Realidade Virtual (RV); Realidade Aumentada (RA); Gamificação; Simuladores Virtuais; Aprendizagem Adaptativa; Hologramas; Vídeos 360º, são alguns exemplos de tecnologias que proporcionam esse formato de ensino.


Essas tecnologias imersivas permitem aproximar cada vez mais experiências sensoriais àquelas vivenciadas na vida real (TORI, 2010). Através dos usos desses equipamentos tecnológicos é possível elaborar um espetáculo de “ilusionismo”, no qual a ilusão/simulação se transforma em ação consciente e crítica. Assim, desde o show de um cantor falecido por meio de um holograma até a exibição de um filme no cinema permitem ao espectador ter sensações bem próximas das expressas na produção exibida. A inserção de artifícios virtuais, gerados computacionalmente, cria ambientes bem semelhantes à realidade. Isso gera a promoção de estratégias de atuação e intervenção no real.


Desse modo, há grandes potencialidades na aplicação dessas tecnologias no ambiente educacional corporativo. Como vimos anteriormente, através delas podemos criar, desenhar ou estabelecer interfaces entre o mundo real e o virtual, promovendo, assim, a interação do aluno com os conhecimentos vistos no treinamento promovido pela empresa. Esses recursos tecnológicos, quando articulados com uma metodologia de ensino bem elaborada, podem provocar uma profunda imersão nos conhecimentos a serem aprendidos durante a formação.


Desse modo, como ressalta Leite (2011), ao optar pelo uso da tecnologia, a empresa precisa não pode abrir mão do seu caráter e responsabilidade de capacitar os colaboradores, mas deve se permitir construir novas propostas pedagógicas articuladas a esses novos artefatos tecnológicos, ressignificando, assim, os usos dessas ferramentas, as quais deixam de ter uma finalidade apenas de entretenimento e passam a ser encaradas por uma perspectiva educacional.


Por esse olhar, já entendemos que, sim, as tecnologias imersivas promovem uma maior absorção do aprendizado, evitando que o conhecimento seja perdido já nas primeiras horas depois de ser compartilhado. Isso acontece por que elas:


1. Atraem a atenção do aluno para os assuntos abordados;

2. Permitem ao aluno aprender fazendo, como sugere Jacques Delors (2018), ao apresentar os 4 pilares da educação, onde um desses pilares é o de aprender a fazer;

3. Possibilitam que o colaborador corrija os seus equívocos antes mesmo de ele se efetivar no quadro da empresa;

4. Após essa imersão, o colaborador emerge dessa vivência equipado com as informações necessárias para tornar sua prática efetiva e produtiva no seu cotidiano corporativo.


Em contrapartida, ao pensar o uso dessas tecnologias e a concepção delas como mediadoras do processo de ensino-aprendizagem é necessário que sejam pontuadas algumas reflexões, tais como:


1. Recursos de ambientes virtuais e imersivos exigem alto custo de investimento, o que muitas vezes se torna inviável para algumas empresas, um bom exemplo dessa realidade são as pequenas empresas, as quais dispõem de poucos recursos de investimentos;

2. Um sistema de ensino instrucional que se orienta com base exclusivamente na transmissão de informação dos conhecimentos e procedimentos historicamente convencionados como relevantes, e que se utiliza apenas de livros, apostilas com prints de tela, quadro branco, pincel, cadernos e canetas;

3. Profissionais ainda não capacitados para a mobilização desses recursos tecnológicos imersivos em suas práticas pedagógicas, ou seja, educadores, gestores e instrutores que podem ser considerados “imigrantes digitais”, isto é, os quais já estavam atuando na sala de aula antes mesmo dessas tecnologias começarem a surgir e que carecem de formação continuada e contínua para se qualificar profissionalmente e obter conhecimentos diversos e críticos.


A partir disso, é preciso que haja ações sistemáticas que visem responder e gerar novas soluções para as situações-problema que vão surgindo no cotidiano de capacitação no ambiente corporativo, porque não é o suficiente apenas compreender o potencial que as tecnologias imersivas tem para a consolidação de um aprendizado significativo, é necessário, eu diria urgente, lançar um olhar também para os obstáculos a serem enfrentados para a efetivação do uso desses recursos nos mais diferentes ambientes de aprendizagem, a fim de construir uma educação para a imersão do aluno no oceano de informações, conhecimentos e de afetos múltiplos.


Portanto, é preciso entender a realidade da organização, principalmente no que se refere a situação financeira, avaliar o cenário atual, conhecer quais são os objetivos de aprendizagem, quem é o público alvo e compreender também que as tecnologias não são a única forma de construir o processo de aprendizagem. Mas, de antemão, é necessário olhar para a prática pedagógica, quais estratégias de ensino estão sendo implementadas e observar que também existem outros formatos de promover a imersão nos aprendizados, como por exemplo: os estudos de casos, storytelling, aprendizagem baseada em problemas. Essas são algumas alternativas que permitem uma aproximação com a realidade. Além disso, convém pensar na formação dos profissionais que atuam na capacitação desses colaboradores, para que possam ter conhecimentos e vivências com as tecnologias e experiências com o ambiente das atividades de trabalho.


Dessa forma, é possível pensar no processo de aprendizagem através do uso das tecnologias imersivas que tanto contribuem para o entretenimento e que podem promover um aprendizado mais realista, mas sem condicionar a organização a esse modelo, mas sugerindo uma reflexão sobre suas práticas pedagógicas.



Fontes:


DAROS, Thuinie. Como aplicar metodologias imersivas na educação superior - Blog Desafios da Educação. Disponível em: https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/metodologias-imersivas-educacao-superior/. Acesso em: 16 dez. 2020.


DELORS, Jacques (Coord.). Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2018, p. 89-102.


LEITE, Ligia Silva. Mídia e a perspectiva da Tecnologia Educacional no processo pedagógico contemporâneo. In: FREIRE, Wendel et al. (org.). Tecnologia e Educação: As mídias na prática docente. Rio de Janeiro, RJ: Wak Editora, 2011, p. 61-78.


TORI, Romero. Educação sem distância: as tecnologias interativas na redução de distâncias em ensino e aprendizagem. 1ª ed. São Paulo, SP: Editora Senac São Paulo, 2010.


TORI, Romero. Educação Imersiva. – Blog Educação sem Distância. Disponível em: https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/metodologias-imersivas-educacao-superior/. Acesso em: 17 dez. 2020.




Paulo Ricardo da Silva Pereira


Mestrando em Tecnologia e Gestão em Educação a Distância na Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE. Especialista em Administração e Marketing. Pedagogo.

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/oricardop

Instagram: @rickpereira08


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